Educação

Meu filho está mordendo! E agora?

Desde que o bebê nasce, é pela boca que ele percebe o mundo. Não apenas pelo ato de sucção e das mamadas, mas pelo choro, pelo riso, pelo balbuciar. À medida que cresce e com o surgimento dos dentes, esse processo continua, e morder também passa a ser uma forma de interagir com o mundo, de perceber a consistência de um objeto e também de provocar reações. 

Portanto, para compreender as mordidas, é necessário levar em conta o contexto em que ocorrem. Geralmente, estão associadas ao sentimento de contrariedade, de frustração, de ansiedade, de raiva, de ciúmes, de busca de atenção. Praticamente, toda criança entre um e três anos lançará mão desse recurso…

Mordida em outras crianças

Geralmente são crianças que estão aprendendo a dividir seu espaço com outras da mesma idade. Nesse período estão aperfeiçoando seus sentidos e agora, na creche ou outro ambiente coletivo, fora dos cuidados dos pais, precisam dividir a atenção dos adultos com outras crianças. Não é fácil aprender a conviver com outras crianças da mesma faixa etária, que também disputam atenção.

A mordida faz parte dos mecanismos de defesas mais primitivos do homem. Quando a criança não consegue outra forma de comunicação, ou explorar o ambiente da forma que lhe agrada, é possível que use esse artifício para marcar seu espaço. Cabe aos pais e professores não supervalorizarem a mordida em si e sim as causas que levaram uma a morder, e a outra a permitir ser mordida.

Mais raramente pode ocorrer de alguma criança ficar muito cansada ou com sono e, também diante deste desconforto, irritar-se e morder.

Há também a mordida como manifestação de contato. Quando começam a despertar para o fato de que existem outras crianças, quando vão se conhecendo melhor e criando vínculos, aparece uma mistura de união e empurrão, beijos e abraços apertados com mordida e beliscões. Não podemos esquecer que muitos pais dão pequenas mordidas nos filhos como forma de carinho.

A reação do outro é também algo que estão explorando e experimentando. Muitas vezes a criança é surpreendida pela reação de que ela mordeu, por não terem a real dimensão da dor provocada. É comum ficar assustada e chorar.

Após os três anos de idade é muito difícil uma criança morder, pois agora ela já se utiliza da fala para se comunicar. Mas, se a mordida continuar a acontecer devemos investigar o porquê, levando em consideração todos os contextos nos quais a criança está inserida. 

Como lidar com a mordida

Seja qual for a causa, é importante não taxar a criança de mordedora, porque isso vai gerar a expectativa de que ela volte a morder, o que pode realmente levar a mais mordidas. O melhor é tratar o fato com tranqüilidade, e mostrar à criança que o que ela faz provoca dor, machuca. E, além disso, ensinar que existem outras formas de expressar seus sentimentos, principalmente através da linguagem verbal.

Também precisamos deixar claro para aquelas que mordem que esse seu ato não é positivo, que enquanto adultos não podemos permitir que elas machuquem outras crianças. Quando for necessária uma colocação mais firme, devemos verbalizar que combater pelo que se quer não é errado, e sim a forma como foi feito.

E a criança que é mordida?

Já a criança que é mordida repetidas vezes precisa de acolhimento – atenção e ajuda – para melhorar seus reflexos, expressar seu descontentamento e encontrar mecanismos de defesa. Fortalecê-la, porém, não é incentivar o revide, o que ocorre com freqüência com alguns pais pelo receio de que seu filho se torne um sujeito passivo diante da vida. É preciso lembrar que o adulto não deve oferecer um modelo agressivo sob pena de fixar a hostilidade e a agressividade nos primeiros relacionamentos da criança.

Sugestões para lidar com a mordida:

  • Dê possibilidade à criança de expressar o que ele sente para que compreenda o que está acontecendo consigo. Quando ele não souber dizer por que mordeu o colega, experimente oferecer-lhe algumas opções.
  • Investigue o que pode estar acontecendo, se houve alguma mudança recente. Avalie gatilhos para a mordida, como cansaço.
  • Por mais que pareça a melhor medida, o isolamento da criança não resolve o problema. Aprende-se a conviver bem experimentando a convivência. 
  • Antecipe a ação negativa intervindo para evitar que a criança reincida. É preciso aprender a identificar o contexto dentro do qual ela apela para a mordida.
  • A criança não deve usufruir daquilo que conquistou à base da mordida (isso vale para chutes, beliscões, tapas, arranhões). 
  • Estimule sempre um pedido de desculpas.
  • Se você perceber a necessidade de ameaçar com uma medida punitiva, combine o que acontecerá se o ato voltar a ser praticado e cumpra o combinado. Voltar atrás é dizer que você não tem certeza de sua decisão. Vale lembrar que a punição não deve ser física e que a criança não deve ser humilhada. 
  •    Um trabalho com argila, onde se trabalha a função da boca, dos dentes, da língua, da saliva, dos lábios, etc., acaba sendo um instrumento pedagógico bastante eficaz. 
  •    Pode-se também trazer alimentos de diversas texturas para que a criança experimente mordê-los e assim perceber a força que tem e ao mesmo tempo atender a essa necessidade de uma forma aceitável.
  • Nunca morda a criança mesmo que por carinho ou brincadeira;
  •    Ensine outras formas de expressar seus sentimentos;
  • Não de risadas quando a criança morder, nem que esta seja fraca e venha acompanhada de sorrisos e caras engraçadas;
  • Mostre a criança que a mordida dói, converse com ela sobre isso, ajude-a a colocar-se no lugar da outra para que construa o seu conceito de dor.

Você já aplica algumas destas sugestões? Conta aqui nos comentários pra gente!

Mãe do Davi de 2 anos e 5 meses, psicóloga desde 2007. Trabalha com atendimento presencial e online em psicoterapia para mães e consultoria para sono, rotina, desfralde, adaptação escolar e outras questões relacionadas ao universo materno infantil.