Vida de Mamãe

Meu bebê Arco-íris: uma história de cura, libertação e renovação.

Eram 9 horas da manhã de um dia útil qualquer que estava prestes a se tornar o dia mais especial de nossas vidas. Estávamos na sala de espera de um desses grandes laboratórios na região da Avenida Paulista.

Como era de se imaginar, muitas pessoas na espera, exames que renovam a fé e a esperança, mas também resultados que sentenciam uma vida. Nós, eu e meu marido, estávamos ali, ansiosos e muito animados, afinal de contas ouviríamos o coração de nosso bebê pela primeira vez!

O cenário estava montado, sala preparada, médico paramentado, eu e meu marido de mãos dadas, ouvidos atentos e o aparelhinho de ultrassom começa a buscar o tum tum tum, mas nada podemos ouvir. Um silêncio barulhento começa a se instalar naquela sala fria, que parecia congelar meu coração, quando o médico dispara: “sobrou para mim contar que o bebê não evoluiu”!

Nesse exato momento, sinto minhas pernas adormecerem, meu marido sai em disparada pelo corredor repleto de casais a espera do mesmo exame. Eu? Eu fico ali deitada com as pernas abertas, desejando que aquele médico tente de novo, e de novo, para me certificar que ele estava profundamente enganado por sua arrogância.

Eu pergunto: o que faço agora? Ele diz: sua médica vai te orientar. Crio coragem, retomo as minhas pernas, me troco e vou ao encontro do meu parceiro, ambos não conseguem dizer nada, apenas nos abraçamos e comungamos do mesmo desejo de sair rapidamente daquele lugar.

No metrô, o vai e vem das pessoas me dá mais angústia e ligo para a minha médica (supostamente humanizada, parto natural), em busca de uma palavra que fosse capaz de ser oxigênio neste momento, ela diz: você não entendeu o laudo? O bebê não evoluiu! Simples assim! Meu coração parece ter parado pela segunda vez, como podemos vivenciar tamanha frieza no ambiente médico?

Vou para minha casa e espero, na esperança de que num próximo exame aquele coraçãozinho criasse força e silenciasse todas essas pessoas que cruzaram nosso caminho. Ainda entorpecida, uma amiga me oferece ajuda e indica uma médica que prontamente me encaixou em sua agenda, no mesmo dia, numa tarde de Sol no fim de março de 2016, porém nem mesmo o acolhimento da psicóloga que antecedia o exame, nem a sorriso amável da médica foram capazes de conter a tristeza que nos acometia.

Nosso bebê realmente não iria se manifestar e agora um mundo de pôr quês começa a tomar conta da minha cabeça e da minha boca. A médica gentilmente manda eu prestar atenção na imagem que vimos no ultrassom, pois ela seria importante para termos o entendimento necessário.

Depois de aceitar o diagnóstico fomos conversar por cerca de 2 horas com essa médica que nos explicou o possível motivo da interrupção da gestação: uma trombofilia, que nada mais era do que um coágulo que havia se formado, impedindo que o bebê recebesse os nutrientes e bloqueando o fluxo sanguíneo necessários para ele continuar crescendo.

Entendido o motivo, vamos para os próximos passos, agendar a curetagem ou ir para casa esperar o aborto espontâneo? Ir para casa esperar, claro! No fundo eu ainda custava a acreditar e pensava que dali alguns dias poderíamos refazer o exame e esse tum tum tum finalmente aparecer.

Ela me disse antes de irmos embora: me acione quando estiver pronta, é um momento que só você poderá me dizer a hora de vivenciarmos a próxima etapa. Está bem! Vou para casa e lá se passaram sete dias, eu deitada no sofá, sem sentir absolutamente nada, nem uma cólica se quer, a cabeça começa a pirar, você não sabe se assume de vez que chegamos ao fim da linha ou se esperar é renovar a minha fé!

Aguento por uma semana quando ligo para a médica, combinamos os detalhes burocráticos e partimos para um hospital e maternidade. Mais uma sala de espera lotada de casais, muitas mulheres em trabalho de parto ou fazendo a internação para terem seus bebês por cesarianas agendadas, e novamente uma sala fria em que ouço da médica plantonista após ultrassom: bebê não evoluiu, quer que eu faça a “curetra” ou vai esperar sua médica?

Engulo seco, me troco novamente e aguardo aquela que daria o encaminhamento final. Burocracias, papéis, internação, é chegada a hora de entrar no elevador que nos deixaria no centro cirúrgico, no mesmo elevador um amigo do meu marido animado com a chegada de seu filho, nos pergunta: vocês também serão pais? Não sabemos o que responder.

Seguimos, centro obstétrico, anestesia, equipe médica, silêncio, recuperação, quarto, corredor repleto de mamães com seus bebês. Cabe a nós nos reconectarmos e fazermos nossas malas, é preciso coragem para seguir e sair dali sem o pacotinho na roupinha vermelha que dizem trazer sorte!

Sair do hospital e ouvir frases com a intenção de nos consolar, mas que deixavam a dor ainda mais intensa, pois minimizavam o que estávamos sentindo (e somente nós sabemos o quanto sentimos) por isso, aproveito a oportunidade para alertar você que está lendo esse texto que não use expressões de consolo como: Menos mal que foi agora. Melhor perder o bebê do que ter um filho com sequelas. Que bom que ainda era pequenininho. Ainda bem que nem chegou a ver o bebê. É assim mesmo, o primeiro não vinga. Se lhe faltarem palavras, apenas abrace, se coloque ao lado e à disposição, muitas vezes essa atitude será mais acolhedora do que qualquer palavra que diga.

O silêncio é necessário e abraça nessas horas. A vida aos poucos vai voltando para os trilhos, meu filho insiste em povoar meus sonhos, até que em um deles nos abraçamos e nos despedimos, na realidade combinamos um até breve.

Nos 6 meses que se passaram fiz exames e descobri o motivo da perda gestacional: síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAF) que é uma doença sistêmica autoimune caracterizada por trombose arterial e venosa. Tal doença que no SUS somente é investigada pelo protocolo após a mulher ter apresentado no mínimo 3 perdas gestacionais, você já pensou passar por toda essa dor novamente?

Pois bem, felizmente eu tive condições de fazer os exames e pude me preparar para uma próxima gestação. Em outubro de 2016, no dia do meu aniversário recebi a boa nova, estávamos esperando nosso segundo bebê, agora munidos de informação, já sabíamos que o tratamento seriam injeções anticoagulantes, usadas diariamente durante toda a gestação e mais alguns dias após o nascimento.

As famosas picadinhas de amor são custosas financeiramente e fisicamente, porém todo sacrifício valeria a pena, afinal, a partir de agora teríamos nosso bebê arco-íris! Sim, conhecidos por serem crianças fortes, saudáveis e que representam para famílias que vivenciaram perdas gestacionais ou perinatais o recomeço, esses bebês arco-íris são o Sol chegando para limpar e afastar a tempestade e seus efeitos negativos.

Em junho de 2017, acolhi em meus braços aquela que representa mais do que um arco-íris, ela é a nossa cura, libertação e renovação. Nenhum bebê substitui o outro, ele expande o amor que existe nesse núcleo familiar.

Encerro esse relato esperançosa de que quanto mais pessoas tiverem informação, menos dor poderá ser causada e que os profissionais e lugares que recebem mães em perda gestacional sejam verdadeiramente mais empáticos, humanizados, e prestem o acolhimento necessário.

Daniela Mendes, Turismóloga, Educadora, Mãe em Formação que adora escrever sobre os deleites e os desafios da maternidade, busca incentivar a partir de seus textos uma escuta empática e uma construção coletiva de conhecimento com outros pais. É mãe da Antonella, de 2 anos e idealizadora do projeto @dani.tanahoradocafematerno.

3 Comentários

  • Juliana

    Lindo texto Dani! Desculpas se em algum momento não consegui te dar um abraço acolhedor. Vc tem minha admiração e .eu carinho. Continue com seus textos lindos, reais e inspiradores.

  • Juliana

    Lindo texto Dani! Desculpas se em algum momento não consegui te dar um abraço acolhedor. Vc tem minha admiração e meu carinho. Continue com seus textos lindos, reais e inspiradores.

  • Fabiana Rosa

    Uau… ler esse texto é como assistir um filminho de toda a fase doida que passaram.

    A tempestade nunca dura para sempre, a bonança chega na hora e momento certo, e a bonança de vocês se chama Antonella, o pacotinho de amor mais lindo ❤️ Que Deus os agraciaram!

    A vida é feita de compartilhamentos, e vc tem feito isso lindamente.

    Sejam ainda mais felizes e abençoados por Deus!

    Beijo grande cheio de amor por eaaa família linda❤️

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