Isolamento social pode ser um sintoma de depressão infantil
Saúde

Depressão Infantil. Não confunda com tristeza.

Depressão é um tema muito falado hoje em dia, mas ao contrário do que muita gente pensa, essa não é uma doença exclusiva dos adultos.  A depressão infantil é um transtorno  complexo que  se origina de fatores  biopsicossocial que incluem  alterações cognitivas e psicofisiológicas .

Um dos primeiros relatos sobre  depressão infantil  foi  em 1995, com uma menina com 3 anos de idade,  tendo como a principal  queixa a irritabilidade, anedonia e alterações no sono.

Para falar sobre esse assunto, entrevistamos a Sara Fernandes, Psicóloga Clínica, Especialista em Neuropsicologia. Atendimento psicoterápico à Crianças, Adolescente e Adultos. Formada em Terapia Cognitiva Comportamental pelo Centro de Psicologia Aplicada e Formação CPAF-RJ.

  1. Quais os primeiros sinais de alerta para os pais? Os pais devem estar atentos.

É preciso estar atento às mudanças repentinas de comportamento da criança em relação as atividades que a criança  realizava anteriormente, mudança  essa que cause  um  mal estar  clinicamente  significativo.  Ao primeiro sinal de depressão, os pais devem acolher a criança para que ela venha se  sentir à vontade para falar o que está sentindo.

  1. Como identificar os primeiros sintomas? 

A depressão infantil é composta por vários sintomas, os quais podem ir de sintomas mais leves, como reações de tristeza e falta de interesse frente a situações estressantes, até sintomas mais graves, que podem levar a uma condição clínica, gerando  um enorme sofrimento. De modo geral, a criança começa a se retrair e muitas vezes os pais não percebem que algo errado está acontecendo. A irritabilidade  associada a retraimento e anedonia (perda de prazer, incapacidade de aproveitar atividades e brincadeiras comuns  nessa fase), alterações na qualidade do sono e culpa excessiva podem ser um indicativo de depressão.

As crianças menores têm maior dificuldade de entender e expressar os sentimentos e frequentemente externam a tristeza por meio de sintomas físicos. Vale ressaltar que o desvio do comportamento normal é o que caracteriza a doença dependendo do contexto em que os sintomas aparecem, e quais os prejuízos causados.

Os sintomas mais comuns são queixas somáticas, irritabilidade, perda de prazer aparente para fazer coisas que antes gostava, variações de peso, passa a comer menos ou mais do que o habitual, prefere se isolar a brincar com outras crianças, se mostra cansada com frequência, não quer mais ir à escola, redução das  habilidades cognitivas,  entre outros.

  1. Como é feito o diagnóstico e com que idade é possível constatar a depressão infantil?

Diagnosticar depressão infantil é um desafio pois não há uma causa única para desenvolver um quadro depressivo, já que os sintomas podem ser confundidos com malcriação, pirraça, birra e mau humor. A depressão normalmente é diagnosticada depois dos cinco anos de idade, e as causas são multifatoriais, como vulnerabilidade do sistema nervoso central, fatores genéticos e ambientais. O diagnóstico precoce é muito importante para que o tratamento seja iniciado e torne mais fácil a modificação dos comportamentos depressivos, tendo em vista que, ao longo do tempo, eles podem se tornar mais resistentes à mudança.

  1. Também é necessário acompanhamento com psiquiatra e uso de medicamentos?  

Na maioria das vezes o apoio da família e a psicoterapia são suficientes. Somente a partir dos 6 anos de idade é necessário, em alguns casos, intervir com medicamentos. A depressão infantil desencadeia várias outras doenças tais como: anorexia, bulimia, quadros de ansiedade, etc. Nestes casos o diagnóstico é realizado  pelo  psiquiatra, segundo os critérios do DSM-V e do CID-10 e haverá um trabalho conjunto do psicólogo e do psiquiatra. Não existem exames laboratoriais específicos para diagnosticar depressão.

  1. Tristeza e depressão, qual a diferença?  

É comum ver o termo  depressão usado para descrever a tristeza, mas a tristeza é um sentimento presente e necessário a todos nós. A depressão é um transtorno afetivo, uma desordem cerebral funcional com base bioquímica, portanto, não é “frescura”, como muitas pessoas falam. O que diferencia a depressão da tristeza do dia-a-dia é a intensidade, a persistência e as mudanças em hábitos normais das atividades da criança.

  1. Um termo muito usado na psicologia é gatilho. O que é? 

São mecanismos cerebrais, estímulos emocionais que são acionados ativando lembranças, traumas e situações marcantes na vida das pessoas.

  1. Quais os gatilhos que podem desencadear uma crise de depressão nas crianças? 

Os estímulos mentais podem ser acionados por qualquer gatilho, situação ou experiência frustrante que a criança tenha enfrentado, como separação dos pais, morte de um parente, bullying na escola, abandono, abusos físicos ou psicológicos, mudanças bruscas e alterações no padrão de vida. O estilo de vida que levamos pode favorecer a manifestação da doença.

  1. É uma doença transitória ou pode ser necessário tratamento e acompanhamento permanente

A depressão infantil é uma doença, e caso não seja diagnosticada e tratada, a tendência é que permaneça  acompanhando o paciente durante todo a vida. 

  1. A depressão infantil se manifesta da mesma maneira que a depressão em adultos? 

De acordo com o DSM-V, a depressão infantil é semelhante a depressão do adulto, de forma que os mesmos critérios de diagnósticos de depressão no adulto podem ser utilizados para avaliar a depressão na criança, embora a idade module as características e os reflexos negativos dos transtornos. O que difere é a maneira que a criança verbaliza os sintomas. Enquanto o adulto sofre com alteração de humor, falta de prazer em viver, alterações de sono e de apetite, as crianças nem sempre dão sinais tão característicos.

  1. O número de crianças afetadas pela doença vem aumentando. A que você atribui esse aumento? 

A alta prevalência do transtorno depressivo em crianças leva-nos a refletir a respeito de vários fatores que influenciam o desenvolvimento de sintomas depressivos. Na clínica cada vez mais surgem casos que apresentam a sintomatologia de depressão infantil.  Este aumento pode ser atribuído por problemas no sistema familiar, problemas escolares e separação dos pais, a  perdas do vínculo de um dos pais, ocasionadas pela separação tem uma maior probabilidade de desenvolver o transtorno depressivo.

  1. Devido a pandemia do novo coronavírus, as escolas foram fechadas e as crianças foram submetidas ao isolamento social? Qual o impacto dessa situação na saúde mental dos pequenos? Esse pode ser um gatilho para a depressão também? 

Além dos riscos para a saúde física ocasionados pela covid-19, a pandemia provoca uma série de consequências negativas para a saúde mental. A mudança repentina na rotina causada pelas medidas de isolamento social levou a uma incidência maior de ansiedade e estresse em pessoas de todas as idades.


Criança é um ser que capta as informações de seu contexto, assim, em um ambiente de tensão e conflito a criança fica mais sensível. Com comportamentos diferentes dos habituais, a capacidade para realizar tarefas e lidar com sentimentos está modificada. Os efeitos da violência psicológica no desenvolvimento infantil são múltiplos, o que gera  estresse tóxico. O resultado pode ser a interrupção do desenvolvimento saudável do cérebro, o que leva a mudanças bruscas no comportamento, diminuição da imunidade, ansiedade e depressão.

Esperamos que esse texto seja esclarecedor e que ajude famílias que são afetadas por esse transtorno, a perceberem os primeiros sinais, para buscar atendimento especializado precoce.

Compartilhe essa informação e se você passa por isso, conta como tem sido essa situação para você e sua família.

Elaine Rota, mãe das gêmeas Ester e Hadassa. Jornalista, formada desde 2008 e empreendedora, especializada em gestão.