Maternidade Atípica

A importância do brincar para crianças com autismo

Se você ama um autista, brinque com ele! 

Algumas crianças comem mal, outras dormem mal. Meu filho, além de comer e dormir muito mal, brincava muito mal também.

Queria sempre brincar sozinho, de uma forma muito pouco complexa para a idade dele, de maneira muito repetitiva e se alguém se aproximava, ele espalhava os brinquedos e saía. Por muito tempo me culpei, acreditando que se Rafael não tinha interesse nenhum em brincar comigo é porque eu devia ser extremamente sem graça, e se eu não estava conseguindo ensinar nada a ele, é porque eu era incapaz.

Como já contei neste post, algum tempo depois eu fui capaz de enxergar que a questão ia bem além das minhas incapacidades, e, por volta de um ano e meio de idade, meu filho foi diagnosticado dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Ficou claro, então, que o que prejudicava sua capacidade de brincar eram alguns dos sintomas-chave do autismo: dificuldade de interação, baixo ou nenhum compartilhamento e contato visual, interesses restritos e autocentrados.

Escolhemos como método de tratamento o Modelo Denver de Intervenção Precoce, preconizado no Brasil e no mundo como um dos melhores métodos de intervenção para crianças até cinco anos com atraso no desenvolvimento.

Quando recebi a informação de que meu filho faria por volta de 20 horas semanais de tratamento, aquilo me atingiu como uma bala. Pensei em todas as horas que ele deixaria de brincar para fazer terapia e meu coração se partiu. Eis que logo descobri que as terapias em questão eram todas baseadas em… brincadeiras!

Se antes eu não conseguia manter o Rafael brincando comigo por mais de 30 segundos, hoje somos capazes de brincar por horas a fio. Brincando, Rafa aprendeu incontáveis habilidades motoras e sociais fundamentais para seu desenvolvimento. Brincando, Rafa aprendeu que  interagir com outra pessoa pode ser muito legal também.

Em tempos de quarentena, com famílias estressadas pelas preocupações, tarefas acumuladas, confinamento e crianças autistas sem terapia, me preocupa muito que tanto o Rafa quanto outras crianças possam retroceder em seu desenvolvimento conquistado com tanto suor.

Por isso, convidei Fernanda Vicario*,  assistente terapêutica responsável pelo tratamento do Rafael há quase um ano (e minha sócia no Projeto PlayAut Brincadeiras**, do qual falaremos a seguir), também mãe de uma criança autista que recebeu alta das terapias há um ano, para nos contar um pouco da sua experiência e da importância do brincar, e nos dar algumas dicas de como lidar com este momento delicado de isolamento social.

1) Fernanda, qual a importância do brincar?

Brincar é importante para toda criança, não apenas para as crianças autistas. É brincando que as crianças aprendem. É através da brincadeira que as crianças acessam o mundo, que elas têm um primeiro contato com as regras, com limites, que elas aprimoram a linguagem, melhoram coordenação motora…

Brincando, as crianças desenvolvem e exercitam a criatividade e a imaginação. Brincar, portanto, é fundamental para a aprendizagem da criança. Pensando nas principais dificuldades do autista, como interação social, comunicação e presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos, a brincadeira pode fazer total diferença.

É brincando que essa criança vai desenvolver essas habilidades e descobrir que o convívio social pode ser, sim, muito prazeroso e que brincar é muito divertido. Algumas pessoas pensam, erroneamente, que a criança autista não gosta de brincar, mas muitas vezes, ela não sabe COMO brincar.

2) O segredo está muito mais na forma que a brincadeira é apresentada, do que o tipo de brincadeira em si, certo?

Exatamente. Cabe a nós, adultos, apresentar uma variedade maior de brincadeiras, dar novas oportunidades e diferentes formas de brincar com a mesma coisa. É através da variação, da repetição que a criança desenvolverá familiaridade com aquela situação e com os objetos e se sentirá mais à vontade para construir uma relação de parceria na brincadeira com o outro, baseada na reciprocidade.

3) Quais atividades você sugere para as famílias durante o período de quarentena?

  • Envolver crianças nas tarefas domésticas. Cultivar a cooperação dentro da família é muito importante. Respeitando, é claro,  a idade e a capacidade de cada criança. Você pode pedir que arrumem suas camas, alimentem os animais de estimação, reguem as plantas, tirem o pó, sequem a louça, guardem os brinquedos… As crianças adoram se sentir úteis e é uma ótima oportunidade de interação familiar.
  • Culinária. Podemos partir das receitas mais básicas, como gelatina, suco, lanchinhos, leite com achocolatado, etc, e aproveitar para trabalhar conceitos como quantidade, sequência, etc.
  • Atividades físicas. As crianças têm muita energia e também precisam se exercitar, principalmente por conta do confinamento. Por isso, é importante intercalarmos atividades motoras com atividades mais calmas e relaxantes. Podemos brincar de pega-pega, pular corda, brincadeiras de roda, dançar…
  • Leitura. Podemos separar um momento do dia para fazer uma atividade de leitura. O ideal é que seja um momento em que a criança não esteja muito agitada, senão a chance de conseguir atenção será menor. Pode ser após uma atividade motora intensa, por exemplo. Caso não tenha livros em casa, alguns blogs e canais estão fazendo contação de histórias ao vivo. Uma boa ideia é aproveitar álbuns de fotos antigas para contar histórias das infâncias dos pais e recordar os membros da família.
  •  Um novo projeto. Pode ser um diário, uma maquete, um artesanato, um álbum de fotos, um brinquedo com material reciclável… O ideal é que o projeto leve alguns dias e tenha etapas bem definidas, assim vocês terão mais uma opção de atividade diária. Os pais também podem ter um projeto próprio neste período, para ajudar a aliviar o estresse. Todos nós temos aquelas ideias na gaveta, às quais nunca tivemos tempo para dedicar… é uma excelente oportunidade.

4) Foi assim que nasceu o Projeto PlayAut Brincadeiras… da nossa própria quarentena.

Tatyana e Fernanda

Sim. A partir das nossas vivências como mães de autistas e da minha experiência como assistente terapêutica, pensamos em criar um canal que fosse um espaço divertido que reunisse opções de brincadeiras inclusivas, atrativas para todas crianças (autistas ou não), contribuindo com dicas especiais para familiares e amigos de autistas. Ensinar as famílias a criar seus próprios brinquedos com objetos do dia-a-dia, com orientações sobres como introduzir as brincadeiras para conseguir maior interação com a criança.

5) Que orientações você considera importantes para os pais neste momento?

Eu diria para darem prioridade à manutenção da rotina, procurando manter mais ou menos os mesmos horários de sono, banho, refeições, brincar, etc. Isso irá facilitar a retomada das atividades ao fim deste período.

Manter a terapia é fundamental – existem alternativas, com apoio da tecnologia, que permitem que a equipe terapêutica elabore e supervisione, mesmo à distância, um plano terapêutico de estimulação que pode ser implementado pela família, para manutenção das habilidades adquiridas.

Os objetivos podem ser trabalhados em atividades do cotidiano, como banho, refeições, tarefas de independência pessoal… o importante é que sejam momento em que estejamos 100% focados à atividade que estamos desempenhando com a criança.

Algo que preocupa a todos neste momento é a importância de limitar o tempo de tela. Se usada com parcimônia, a tela pode ser favorável à evolução da criança. O ideal é definir momentos específicos do dia para liberar o acesso à tela e selecionar criteriosamente o conteúdo a ser apresentado à criança, para que seja de qualidade e adequado à sua faixa etária.

Temos que nos lembrar que o tempo de tela em excesso é prejudicial a nós, adultos, também. Precisamos buscar um período do dia em que seja possível largar tudo e nos dedicarmos exclusivamente às crianças. Elas observam e absorvem tudo, percebem quando estamos aflitos com as nossas preocupações, é importante reservar um momento para relaxarmos, tanto pelo bem delas quanto por nós mesmos.

Embora seja um período desgastante por conta do isolamento, a quarentena é um momento importante para nos dedicarmos mais às nossas famílias, estreitando e fortalecendo os laços.

*Fernanda Vicario é AT, especialista em Neurociências pela FMUSP e pós graduanda em ABA pela UFSCar. Possui Treinamento Profissional em Intervenção Precoce baseada no Modelo Denver pelo Instituto Farol Autismo e uma infinidade de cursos na área.

**PlayAut Brincadeiras está no Instagram: @playautbrincadeiras

Tatyana, 36 anos, mãe de um lindo menininho autista de dois anos chamado Rafael.

Um comentário

  • Cláudio P.Barbosa

    Parabéns, ótima entrevista dando uma exata dimensão do Autismo e, como podemos ajudar as crianças com autismo no seu dia através de brincadeiras.

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